Velha e louca

Estou chata. Honestamente: mais chata que de costume. Como diz a canção da Mallu Magalhães “Eu tô ficando velha, eu tô ficando louca”. São 4h20 da manhã. Duas pessoas, um homem e uma mulher, estão conversando desde as 23h40 na varanda do apartamento no andar de cima. Detalhe: a varanda é próxima à janela do meu quarto.

Já ouvi sobre política (nas madrugadas regadas a cerveja, vinho e outras bebidas, as discussões são mais acaloradas), relacionamento, profissão, família, inclusive como escolher o melhor carro para comprar. Eles têm assunto de sobra. Descobriram até que as mães de ambos pensam da mesma maneira.

Cochilei algumas vezes, mas era acordada com uma gargalhada. Pensei em abrir a janela e pedir silêncio. Não tive coragem. Por quê? Para não parecer “a” chata. A gente não quer ser “a” chata. Aquela criança dona da bola que acaba a brincadeira porque o time dela perdeu.

Em outra época não me incomodaria. Mas são outros tempos e em minha defesa posso dizer que além de insônia, tenho o sono superleve. Então, pre-ci-so de silêncio. É angustiante perceber que todos estão tranquilos, em sono profundo, enquanto estou ali, ouvindo o diálogo de bêbados.

É feriado e estou na praia. Mais um motivo para pensar: Por que me estressar? Meu lado “zen” diz: Você não tem hora para acordar. Deixe os outros serem felizes. Foque no barulho das ondas, isso relaxa. Tente colocar uma música.  É feriado e você está na praia. Na praia! Ouviu?

O lado “rabugento” insiste: Que absurdo! Que falta de noção das pessoas. Ninguém respeita nada. E a lei do silêncio? Essas pessoas não sabem conviver num condomínio? Os avisos estão espalhados por todo prédio. Inclusive no elevador. Como podem ser tão egoístas?

A indecisão durou algum tempo. Qual lado venceu? “Oi João! Você pode interfonar no 301 e pedir para que eles falem mais baixo, por favor? Está impossível dormir com esse falatório ”. Volto pro quarto. Ouço o interfone tocar. De repente, silêncio. Ninguém na varanda.

Como diz minha terapeuta: doses homeopáticas de egoísmo são bem-vindas. Agora sim, boa noite!


 

[M.B.]

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