Sobre músicas, silêncios e conhecimentos : navegar é preciso

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Há uns 2400 anos, Aristóteles disse que conhecimento é vida. A frase é antiga, mas me soa tão real.  Para mim, conhecer é não morrer na praia da ignorância, é se preencher de conteúdos interessantes, de fôlego, de energia.

Quando eu viajo para um lugar que nunca fui antes, conheço uma pessoa nova, ouço uma banda diferente, estudo um assunto novo, tento um esporte ou um instrumento musical diferentes, ou quando resolvo ler um livro ou ver um filme, eu amplio meus horizontes internos, fico maior, mais recheada de novas imagens mentais, meu cérebro fervilha com estes conhecimentos fresquinhos. Eu realmente, me encho de vida!

É dessa vida que sou feita, é ela que me move, me faz feliz e me dá personalidade. Claro que a vida, apesar de plena de conhecimentos, ela também é cheia de obrigações e nem sempre temos tempo ou energia para fazer tudo isso aí acima junto e misturado. Aí entra o bom senso e a vibe do momento.

Quando eu fui fazer mestrado, por exemplo, eu falei sobre música, eu devorei o tema como um faminto devora um prato de comida. Na medida em que eu lia sobre música – incentivada por maravilhosos pesquisadores com tanta sede de conhecimento quanto eu – estudava um, dois ou até três livros sobre o tema por semana, mais e mais eu me desinteressava por ouvi-la. Eu passava perto de um CD ou disco e não pegava, eu entrava no metrô com meu celular e não ouvia música (mesmo meu tema sendo exatamente música e mobilidade!). Me saturei, me preenchi até não aguentar mais, quase me afoguei. Durante aquele tempo nada que eu ouvisse era musicalmente assimilado – inclusive vendi meu contrabaixo nesta época.

Passaram-se três meses do fim do mestrado quando comecei a me sentir mais musical, era uma ou outra música preferida que me chamavam de volta, me faziam cantarolar pela casa ou batucar descompromissadamente. Até que um belo dia, lá pelo finzinho de 2014, eu resolvi ouvir um álbum inteirinho do Iron Maiden, minha banda favorita. Resultado: deu certo! Consegui, curti, gostei, cantei e amei.

Passado este momento de saturação e voltando ao costume de ouvir músicas, resolvi me aventurar por novos caminhos do conhecimento, pois me sentia vazia de novo, cheia de ânsia por nadar por lugares desconhecidos. Lá fui eu, pesquisando, encontrando e relembrando coisas pouco ouvidas.

Até que os caminhos pelos quais a gente se aventura para descobrir o que nos faz feliz na vida, me levaram a cruzar o de uma pessoa fissurada na mesma boa música que eu, só que com um apetite musical infinitamente maior. A consequência disso é que deu bossa…ou melhor, metal! Com o perdão do trocadilho.

Eu, que nunca me julguei intensa conhecedora, me deparei com um mar, uma infinidade de possibilidades musicais nada egoístas! Um som indicado puxa mais outro desconhecido. Ou então uma banda mencionada numa conversa, chama em sua memória uma lembrança muito antiga. Quando isso acontece, restam dois caminhos: é deixar pra lá e não se aventurar, ou então mergulhar de cabeça na experiência. Eu sempre escolho o segundo, por isso que volta e meia me saturo, toda tonta e sem equilíbrio, parece que estou em um caiaque em um mar aberto de conhecimentos que a vida me proporciona. Assim foi com o mestrado, os esportes, o teatro, as viagens e também, e principalmente, com a música.

O fato é que, ao conhecer tudo isso, eu me encho de vida. E é às pessoas que me proporcionam e me incentivam a isso que eu sou tão grata. Equilíbro? Que nada! Eu remo contra a corrente sem medo.

Assim eu vou. Jornalista e curiosa, palavras que nunca se separam, seguindo o rumo do conhecimento, por oras remando em águas conhecidas, às vezes quase me afogando aqui e ali, sempre de olho nas infinitas possibilidades.


 

[N.D.]

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