Sobre como ser ímpar em um universo de pares

Fuga. Essa é a principal palavra que me vem a cabeça cada vez que eu me sinto sufocado. Cada vez que uma situação dura mais tempo do que esperado, ou cada vez que eu me sinto nesse marasmo sem sal que é o cotidiano.

Eu nunca fui alguém de viver linearmente. Admiro as pessoas que vivem em parzinhos, e que sabem lidar com os compromissos de casal. Eu talvez seja egoísta aos olhos dessa turma. Mas não sei viver como “nós”. Não caibo bem em banco pra dois e não me sinto a vontade dividindo um sorvete, quem dirá uma vida.

Talvez exista um clã, um espaço destinado aos que não nasceram para ser plural. Um grupo de seres sub (ou super) desenvolvidos, que não aprendeu a lidar com o coletivo, muito menos com a vida em duplinha. Somos singulares, somos feitos de decisões únicas, tomadas sem a ajuda de ninguém, sem precisar do outro para absolutamente nada.

Nós gostamos de beber sozinho, ver filmes – seja em casa ou no cinema – totalmente sozinhos, e até jantar sozinhos. Esses passeios que para um casal é a coisa mais normal do mundo, para nós é um martírio fazer à dois. Simplesmente porque a presença do outro nos atrapalha, nos tira a concentração devida e nos invade a segurança máxima de convivência que pré-estabelecemos para ser feliz.

E qual o problema em ser assim?

O problema é que nascemos condicionados. Nascemos e somos criados para acreditar que alguém que decide viver só é, por consequência, um ser triste. Compramos as drogas enviadas pelos filmes e novelas, regras cuspidas na cara, que nos classificam entre solteiros ou comprometidos. E dentro dos solteiros ainda temos as segmentações de “acabou de tomar um pé na bunda, coitado”, “ela não dá sorte, não arruma ninguém” ou ainda “esse aí gosta de ser solteirão, acho que não vale nada”.

E como ficamos?

Ficamos à nossa própria conta e risco, felizes em nosso universo particular.


 

[JS]

Comments

comments