Sobre clichês, bicicletas e amores

Alguns clichês estão tatuados em nosso cérebro. Homem é prático, mulher é sentimental. Homem pega, mulher se apega. Homem fica, mulher se relaciona. Homem gosta de sexo, mulher gosta de amor. Tudo isso já é tão enraizado em nossa mente que a gente pensa que SEMPRE precisa ser desta forma. Até quando se trata de relacionamentos homossexuais, tem gente que acha que um precisa ser mais sentimental e o outro mais bruto (“todo casal tem um homem e uma mulher”, argh! Não! Mas isso merece outro post).

Sentimento relacionado à gênero é uma ideia fixa tão forte que eu mesma por vezes me pego acreditando que me apaixono demais porque sou mulher. Ou que preciso me apegar àquele carinha gato com quem saí porque é o que a alma feminina faz.

Ele mesmo, aquele cara gato, quando sai com você e não quer ter nada sério morre de medo de você procurá-lo no dia seguinte! O medo dele? Ué! Mulher se apega demais, “vai que ela se apaixona só porque a gente saiu”, ele diz para os amigos.

Estou generalizando? Sim. Pois isso é apenas um recorte de alguns momentos que eu ou minhas amigas vivenciamos e repriso aqui apenas para mostrar como a ideia clichê de que homens são de Marte e mulheres de Vênus é muitíssimo arraigada e afeta comportamentos o tempo inteiro por aí.

Isso não se aplica somente no quesito sentimental. Dia destes fui encher o pneu da minha bicicleta, na bomba ao lado havia um rapaz fazendo o mesmo. O frentista do posto veio apenas para mim e disse “quer ajuda moça?” e eu “não, obrigada, estou acostumada”, “ah, mas cuidado, mulher se enrola nisso aí”. Fiquei sem resposta, sorri e saí sem nem conferir se calibrei direito os pneus.

O fato é que a mulher é vista ainda muito como um sexo frágil, como uma donzela que se o homem olhar muito, ela pode se apaixonar.

E a recíproca é verdadeira! Quem nunca achou superestranho ouvir a história de um rapaz que se apaixonou demais por uma moça porque foi sua primeira namorada? Eu já vi isso acontecer mil vezes e ainda assim, visto o meu próprio preconceito enraizado, me impressiono quando vejo acontecer novamente.

Amor, fragilidade, carinho, atenção, falta de habilidade calibrar um pneu ou realizar atividades de força são coisas que independem de gênero. E ser pré-julgado por realizar uma atividade ou ter um sentimento oposto ao clichê reservado ao seu gênero é um erro!

No entanto, corrigir este erro é um exercício constante e que merece ser feito. Assim veremos as pessoas (e me incluo nisso) como PESSOAS e não como HOMENS e MULHERES estratificados, condensados em pequenos frascos rotulados. Assim, quem sabe um dia eu possa calibrar o pneu da minha bike sem ninguém interferir. Ou, melhor ainda: o frentista possa oferecer ajuda também ao moço que estiver ao meu lado e não somente a mim!


 

[N.D.]

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