Sobre a amarga arte das paixões platônicas

Tem algumas coisas que eu preciso te falar, e sei que já passou da hora. Como passou da hora quando eu cheguei meio minuto depois de você e perdi aquele “bom dia” gostoso. Seu abraço apertado, seu jeito de deitar no meu ombro enquanto sussurra no meu ouvido: “bom dia”.

E quando eu consigo te alcançar, o dia começa bem sabe? Dá vontade de trabalhar por três, e não importa quantos problemas surjam para resolver, sempre dá vontade de continuar. Porque seu sorriso, ao me ver, muda. Muda o dia, muda o ar, muda o ambiente. Eu mudo, emudeço, estremeço. Vontade de falar, e de me calar, simultaneamente.

E você permanece bagunçando meu equilíbrio, me fornecendo os elementos necessários para que eu enlouqueça de vez.

Ok, nada que eu não venha tentando fugir a meses. Nada que não seja resolvido facilmente. Mentira, nada disso vai se resolver. Eu quero pegar sua mão e te levar pra casa. Te proteger do mundo, do seu chefe que eu quero socar cada vez que vejo, te proteger das amigas falsas e do teu pai super protetor.

Quero levar você pra morar comigo, com meu cachorro, com meu videogame e com a minha cama quente. Te fazer carinho até dormir, ver você amanhecer no meu abraço e sentir que a vida enfim está completa.

Mas ao contrário dos meus desejos, te vejo passar por mim sorrindo, entrando em um dos vários elevadores do edifício e sumindo de vez. E mais uma vez eu desejo não ter desejado você. Não ter sentido seu abraço, seu cheiro, não ter ouvido sua voz e, acima de tudo garota, eu desejo ardentemente nunca ter olhado seus olhos escuros brilhando em direção aos meus.

Bom dia, eu respondo. Mas bem longe de onde eu quero você. Tomo um gole de café e me calo na lembrança de um futuro que nunca vai acontecer. Te ver amanhecer sorrindo ao meu lado, satisfeita de prazer e carinho, disposta a enfrentar o dia após um beijo.

Não vai acontecer, já entendi. Respiro fundo, abro um novo arquivo e começo mais um dia.

Bom dia.


[J.S.]

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