Silencio Resgatado – Em nova autobiografia Marcelo Rubens Paiva fala do desaparecimento do pai, a relação com a mãe, juntamente com as memórias de infância e adolescência

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Não importa o número de vezes que lemos sobre o período da ditadura militar no Brasil. Nem quantos filmes e documentários assistimos. Ou depoimentos e entrevistas que ouvimos. Ainda existirão novas provas, novas testemunhas, documentos e confissões. E ainda me comovo ao me deparar com algum material da época, uma história, um livro, como o recente “Ainda Estou Aqui” do escritor, jornalista e roteirista, Marcelo Rubens Paiva.

Vinte de Janeiro de 1971. Aniversário da cidade do Rio de Janeiro. Feriado. A família de Marcelo se preparava para ir à praia quando homens a paisana invadiram sua casa e levaram seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva. Logo em seguida a irmã mais velha, Veroca de apenas 15 anos, e a mãe, Eunice também foram detidas. Veroca foi solta no dia seguinte.  Eunice permaneceu 12 dias na cela do DOI-Codi, na Tijuca. Sem saber que o marido estava morto e sem ter a menor ideia do por que estava presa.

Rubens Beyrodt Paiva foi torturado por dois dias. Aos 41 anos seu corpo não aguentou tamanha violência. O cadáver foi esquartejado, enterrado e depois jogado ao mar. Porém a família só soube os detalhes em 2014, através da Comissão Nacional da Verdade.

A família de Marcelo foi uma das centenas de famílias que sofreram as consequências da brutalidade imposta pelo regime militar. Violência gratuita. Porém, a maneira que os Paiva encontraram para lidar com a situação foi diferente.

Nunca usaram o fato para se vitimizar. Como conta Marcelo num trecho do livro: “Por anos os fotógrafos nos queriam tristes nas fotos. Tivemos a nossa guerra fria contra o pieguismo da imprensa… Éramos ‘A família vítima da ditadura’. Apesar de preferirmos a legenda ‘Uma das muitas famílias vítimas de muitas ditaduras… A família Rubens Paiva não é vítima da ditadura, o país que é”.

A luta de Eunice

Entretanto, o livro vai além das memórias e histórias desse período sombrio. São as lembranças de um menino que teve uma infância feliz, adorava jogar bola e passava as férias com a família na fazenda do avô. Mas que aos 11 anos teve que aprender a lidar com o desaparecimento do pai.

E o mais importante: É a história de Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva, depois apenas Eunice Paiva. Viúva aos 41 anos, com cinco filhos. Que por décadas teve seus bens bloqueados, pois não havia atestado de óbito do marido (já que os militares juravam que ele havia fugido da prisão). Uma mulher que se reinventou. Que chorava sozinha no quarto. Que não era muito dada a afetos com os filhos. Estudou direito e virou uma das mais respeitadas em assuntos indígenas. E passou a vida lutando pela anistia, Diretas Já e Constituinte.

Aí vem a vida e prega outra peça. Em 2006 Eunice foi diagnosticada com Alzheimer. E desde 2008 Marcelo é o responsável legal e civil da mãe. Ela já não se lembra da tensão que vivera por tantos anos procurando respostas, tentando encaixar as peças no quebra cabeça para saber quando e como seu marido morreu. Não se lembra dos dias jogados numa cela escura, sem banho, comida ou comunicação. Nem dos relatos que chegam até hoje. Nem  ao menos dos tempos difíceis em que trabalhava como tradutora para pagar a escola dos filhos. Ou sequer da advogada de prestígio que se tornou. Mas se lembra do neto, filho de Marcelo de quase dois anos.  Porém, em algum lugar no meio desse turbilhão Eunice ainda está aqui e esse livro é para ela.

Ainda Estou Aqui

Autor: Marcelo Rubens Paiva

Editora: Alfaguara

295 páginas

Preço Médio: 30 reais

 


 

[M.B]

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