Relatos da evolução: Eu sorri pra mim

Um dos maiores marcos da minha vida adulta foi o dia que vi o fechamento e acompanhei a demolição da pré-escola onde estudei. Na fração de segundo quando passei de ônibus na frente e vi aquela porta fechada pela primeira vez num dia letivo e com a placa de “vende-se terreno”, percebi: as coisas mudam, até mesmo o que é de concreto.

Dias depois, o que era de aço também se transformou. A banca onde meu pai me comprava revistinhas da turma da Mônica na infância, Capricho na adolescência e, logo depois, eu mesma comecei a adquirir meus jornais durante a faculdade, também se foi.

Nesta toada, do famoso e famigerado progresso, percebo que apesar de viver no mesmo bairro desde que nasci, minha vida se transformou. Não são apenas estes exemplos, mas também as fotos da minha casa, da vista da minha janela (que mostrara montanhas e hoje é cada vez mais recheada de gigantes de pedra), tudo muda. E eu, que não tenho aquela velha opinião formada sobre tudo, como já diria Raul, não poderia ser diferente.

Na beirada que separa a casa dos 20 para os 30 anos na qual me encontro, é impossível não se tornar saudosista e lembrar vários períodos, não só aqueles que se passaram na escolinha, onde hoje funciona um mega-petshop, ou na banca de jornal que agora é só chão vazio, mas também recordo das atitudes que me fizeram a mulher que sou. A chegada nos 30 gera uma necessidade de fazer um balanço em nossas vidas (e se com 30 não rolou, no salto para os 40 provavelmente acontece, segundo boatos).

Certo dia, passando por um dos pontos nostálgicos da cidade com uma amiga, ela disse “o meu eu de 17 anos ficaria feliz com meu eu adulto, se ele passasse por mim na rua naquela época”. Nesta elucubração toda que vos faço aqui, não posso deixar de colocar a mesma situação. O eu de 15 anos, comprando minha Capricho na banca que não mais existe, na companhia de um pai que também já se foi, se me visse passar, ficaria feliz com o resultado?

Ok, beleza, não mudei o mundo, mas viajei por vários cantos dele. Não me casei, mas eu me apaixonei perdidamente por homens maravilhosos que me fizeram feliz durante o tempo que durou. Eu não sou produtora de um grande canal de TV, mas descobri como ser feliz na minha profissão. Não tive filhos, mas hoje consigo ter a certeza de que quero ter.

A “Eu” de 15 anos tinha começado a atuar e não se sentia segura, enquanto a do dobro da idade é atriz formada. A adolescente era levemente envergonhada e não sabia como agir com os meninos, a de hoje é confiante e segura e, chego a dizer, cheia de si. A adolescente tinha vergonha de maquiagens e odiava o cabelo armado, a de hoje bagunça o cabelo e faz charme passando o batom vermelho.

No ano que eu tinha 15, o Gabriel, o Pensador, lançou uma música que dizia “quando a gente muda, o mundo muda com a gente”. Nestes 15 anos depois, taí uma coisa que não se modificou, a eficiência destas palavras bem pensadas.

A menina que agora é mulher, pode não ter sido tudo aquilo que ela imaginava e almejava, mas se tornou mulher e não há crise dos 30, escola demolida ou banca de jornais desaparecida que a coloque para baixo. Aquela garota, vestida de preto, cabelos longos presos num rabo de cavalo baixo, costas curvadas e all star no pé, de repente deu de cara com a de hoje e sorriu um sorriso sincero e orgulhoso para a moça de legging, decote, postura ereta, cabelo esvoaçante e batom chamativo. E o sorriso foi recíproco, porque fazer as pazes com o passado é o que nos faz pessoas melhores no futuro.


 

[N.D.]

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