Prima Dona

Aquele pequeno segredo compartilhado. Aquele sorriso espelhado. Temos o mesmo passado com presentes e futuros não contados.

Primas. São aquelas pessoas que compartilham histórias com você e que sempre estiveram lá. As pessoas familiares em que se reconhece, mesmo que nem sempre queira.

As semelhanças são tão grandes que você pode nem acreditar que existam. Aquela mulher forte que resiste ao amor, ou foge de um compromisso pelo medo de se machucar. O muro que ela constrói em volta do coração é feito do mesmo material que o seu. O estigma que você carrega hoje, um dia foi o dela. Querem nos proteger da realidade, querem nos blindar das verdades, mas nós nem sempre escolhemos a intensidade.

Aquela insegurança e carência escondidas embaixo do controle e da decisão, da lógica disfarçando a emoção. Aquele sonho que precisa de alguém para ajudar a realizar, não importando o custo. Aquela independência dependente. Aquela curiosidade que é força motriz.

Aquela resposta atravessada que damos, forte, que corta como uma navalha afiada. Aquela revolta contra o que não está certo, mas a impotência perante as pedras que não deveriam ser viradas, mas nós temos opinião e não sabemos engolir.

Aquele impulso de “vamos lá”, fechar os olhos e pular. Se você pula, eu pulo. As casas são vizinhas, mas a distância cresceu e criou cânions entre os corações. Tudo isso se apaga num milissegundo e já não importa mais porque eu estou aqui. Aquela lealdade que não se compra. Não temos nada em comum, não podia ser água sem o vinho. Aquele carinho que não vê barreiras.

Aquela irmã mais velha que brincou de casinha e você era a boneca. Aquela que ensinou a ter o primeiro diário, o que escrever e como escrever. Aquela que ganhou sua afeição e sua atenção e que você se importa como irmã.

Aquela variação genética que assusta. O que será que pode acontecer? Aquela enfermidade que vem sem saber e vai sem entender. Aquele choro calado, explícito e dividido. Aquela felicidade e aquele riso na hora errada, que vem pelo amor.

As horas passadas na infância, os verões vendo filmes de terror ou jogando videogame quando fechava os olhos para não ver o que ia acontecer. Tirar sarro de uma ou de outra porque tinha que escolher um lado. Saber que férias era estar junto e chorar quando a distância aparecesse.

Aquele laço que vem pela raiz, pelo olhar, pelos segredos, pelos traumas, dores e momentos de alegria e paz. Aquele tique, aquele movimento, aquele comentário  que não é seu, não é meu. É nosso.

[M.R.]

Comments

comments