Porque Aquarius entrou para a lista dos meus filmes preferidos (contém spoilers)

Em entrevista na página oficial do filme, Sonia Braga descreve Aquarius da seguinte forma: “Eu sempre tive uma imagem de ser uma câmera em outro planeta olhando para o planeta Terra. Então, vai dando um zoom… chega no Brasil, chega em Pernambuco, chega em Recife, no bairro de Boa Viagem, dentro do apartamento e encontra a minha personagem, a Clara e toda a história segue em torno dessa personagem. Tem histórias muito amorosas, histórias estranhas, mas na realidade é uma história muito simples”.

Nesse sentido Sonia tem razão. Sua personagem Clara é uma crítica de música aposentada, única moradora do edifício Aquarius, que se recusa a vender o apartamento para uma construtora transformar o local em um grande empreendimento. Ela está sozinha nessa luta, pois até seus filhos acreditam que vender o apartamento e mudar para um local mais moderno é a melhor opção.

Não se trata de dinheiro. Clara não se importa se a construtora está oferecendo uma quantia acima do mercado. Deseja apenas que sua vontade seja respeitada. Nas palavras de Sonia: “É uma mulher que se sente pressionada pela sociedade, pela família, pela cidade”.

A simplicidade acaba aí. Aquarius é um filme para observadores, que fala sobre vínculos e memórias. Uma narrativa construída nos detalhes. Nos diálogos reais de uma vida real, mas também no silêncio, na troca de olhares, passando pelo movimento de câmera que causa tensão no espectador e nos simbolismos, onde fica impossível não compará-los com o momento que estamos passando atualmente no país.

Aquarius é complexo porque aborda inúmeros temas. Para começar, o preconceito: o diretor Kleber Mendonça Filho (O Som ao Redor, 2012) dá um tapa na cara do espectador quando alguns adolescentes negros se aproximam  do grupo de risoterapia que Clara participa na praia. Fica a pergunta: O que eles vão fazer? Mas ao contrário da imaginação de quem está assistindo, eles apenas querem fazer parte do grupo também.

Há ainda as relações familiares que são muito valiosas para Clara, inclusive é um dos motivos pelo qual ela não vende o apartamento. Foi lá que ela criou os filhos e o lugar está repleto de memórias afetivas. Isso é mostrado também a partir dos objetos. Estantes cheias de livros e discos comprados em sebos. Cada objeto traz consigo uma história. O apartamento é a memória da personagem.

Existe também a relação dos estratos sociais. O esgoto divide a parte rica da parte pobre da praia. Em outro momento, quando a empregada de Clara mostra a foto do filho (que morreu atropelado e o motorista nunca foi encontrado) o mal estar dos que estão na sala é visível. Prendemos a respiração.

A sexualidade depois dos 60 anos é  outro tema. Clara é uma mulher livre, sem preconceitos. Porém, a perda de uma mama após um câncer quando era jovem ainda mexe com a sua autoestima.  Aqui uma observação: a atuação de Bárbara Colen, que interpreta Clara jovem, em 1980, merece destaque.

Diego (interpretado por Humberto Carrão), herdeiro da Construtora, é o vilão que chega “com sangue nos olhos” disposto a fazer de tudo, com uma educação de quem estudou “business” no exterior, mas com um cinismo que nos deixa desconfortáveis. “Isso aqui é meu primeiro projeto, está sob minha responsabilidade. Eu vou atacar”, diz o jovem. Quantos Diegos cruzam nosso dia a dia, nas diferentes esferas políticas e sociais, dispostos a usar meios ilícitos para conseguir o que desejam?

Todo o elenco de apoio, que inclusive tem Irandhir Santos, está ali para deixar a interpretação de Sonia Braga ainda mais brilhante. A trilha sonora encaixa perfeitamente nas cenas e tem músicas de Reginaldo Rossi (Recife Minha Cidade); Aviões do Forró (Meu Som é Pau); Queen (Another One Bites The Dust), Taiguara (Hoje) e Gilberto Gil (Toda Menina Baiana e Pai e Mãe).

Aquarius é tão complexo quanto a sociedade que vivemos hoje. Que a gente aprenda com Clara a dizer não e a resistir.

[M.B.]

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