Onde está minha mãe?

Na manhã do dia 17 de março de 2017 meu telefone tocou antes do despertador. A ligação vinha de um número que quase nunca me liga sem antes perguntar se pode ou se vai atrapalhar.

Meu coração disparou, eu já sabia que algo estava acontecendo. Minha irmã do outro lado da linha falava com voz séria se eu poderia me deslocar com agilidade, se teria como ir ao encontro deles. Meu coração a essa altura batia tão forte que eu mal conseguia respirar ou me manter em pé. Foi preciso mais do que concentração para não apagar de nervoso. “Onde está minha mãe?” eu perguntava quase sem voz, e minha irmã respondia apenas que no hospital saberíamos mais.

Do momento dessa ligação até o momento em que cheguei ao hospital, embora tivesse passado mais de uma hora, eu não consigo me lembrar de muita coisa. A sensações, no entanto, são fixas em mim. A boca seca, o sabor da lágrima descendo sem recriminação, o silêncio que gritava dentro de mim e a súplica aos céus de que eu pudesse abraçar minha mãe com vida mais uma vez. Lembro de lamentar que no dia anterior eu havia pensado nela mais de três vezes e deixei que o tempo me fizesse esquecer de fazer aquela ligação. E porque caralhos eu não havia ido lá no final de semana anterior? Lembro de pensar que havíamos marcado um almoço no dia seguinte, e que eu precisava de mais tempo. Trinta anos não foram suficientes, trinta anos e eu estava começando a vida adulta justo agora, exatamente agora quando eu havia me dado conta de que precisava dela mais do que nunca.

O trajeto que me levaria ao hospital foi o mais longo de toda minha vida. O suor entre os dedos, a sensação de injustiça, de “por que ela?” e o medo de saber que há pouco tempo minha tia – irmã da minha mãe – havia sofrido um infarto similar, pelos mesmos gatilhos que levaram minha mãe ao leito do hospital. Como eu encontraria minha mãe ao chegar lá? Teríamos chance de continuar nossa história? Teríamos mais tempo ou era esse o fim? O nó na garganta volta só de lembrar daquela manhã de sexta-feira, uma sensação que não desejo nem ao pior inimigo. Os questionamentos me afogavam e minavam minhas forças.

Foi só quando cheguei lá, quando o médico disse que ela precisaria de alguns procedimentos mas que estava bem, foi só quando peguei a mão da minha mãe sorrindo e dizendo que tudo ia ficar bem, foi que me dei conta de que a vida é curta, é corrida, é um fio quase invisível e que pode ser rompido a qualquer momento. A finitude da vida, a experiência de quase perder a pessoa que eu mais amo nesse mundo, a sensação de impotência diante de tudo aquilo me fizeram ver que qualquer coisa que não seja amor é perca de tempo.

Na nossa família o dia das mães tem outro sabor esse ano. O doce e afável sabor da gratidão, de misericórdia e de nova chance, para todos nós. E se você chegou até aqui lendo esse texto eu gostaria de te pedir que repense seus atos, a importância que você dá à sua família, sua mãe e seus entes queridos. Pois a missão mais bela que os céus poderiam nos ofertar, sem dúvidas, é a missão de amar incondicionalmente os que nos cercam – e isso só uma mãe é capaz de ensinar.

Feliz dia das mães

(esse texto é sobre ela e a trilha sonora também!)

[Luciana Meningue]

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