O verdadeiro significado do desejo

 

Estou sem ar.

Senti o sangue ferver os poros da minha face. Senti seus olhos percorrendo os contornos do meu sorriso, os movimentos das minhas mãos. Vi suas mãos correndo, involuntariamente, em direção a mim. E senti medo.

E a gente falava de medo nessa hora. Você não tem cara de que sente medo. Mas, lembrando aqui, acho quase impossível que não tenha sentido um calafrio naquela hora.

Você me coloca em xeque. Em tensão profunda. Em ponto de vulnerabilidade.

Sua atenção, seu jeito de decorar as coisas que eu nem me lembrava de ter dito. A minha memória que resolveu funcionar muito bem, e tem decorado você.

Eu sei que você é um desejo. Uma vontade que talvez, depois de saciada, suma de mim. E eu não quero que nada disso vá embora. Então eu não começo o que não posso terminar. E me mantenho firme diante do teu sorriso. Mas cada vez que você sorri meu coração dispara, daquele jeito que ele não pode disparar.

Coloco uma das mãos no rosto, a outra apoio na parede enquanto a vertigem me faz sentir os pelos do braço levantarem. Difícil. Complicado.  E então seus olhos negros flertam novamente com meus sentidos e só piora meu mal estar. Por que? Porque eu preferia estar em outro lugar com você. E meus escrúpulos censuram nossa dança. Eu troco os pés, dou meia volta e evito olhar.

Hora de ir. Chega de dançar.

Quem sabe dia desses, numa dessas fantasias, a gente se enrosque do jeito que nossa alma implora.

Com música, sem hora.

[J.S.]

 

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