O Reflexo

Fito o espelho diante de mim: eu não me enxergo entre as camadas de proteção que criei ao meu redor. Uso mais que máscaras – são fantasias completas para iludir o mundo, para que ele não me veja de verdade. Escondo tudo que é real em mim, meus sonhos, meus anseios, minhas paixões e até mesmo o meu sorriso. Nem mesmo esse abrir de lábios que vejo em reflexo é meu.

Dia após dia, sou obrigada a construir e manter uma pessoa que não existe. Sou obrigada a suportar a pessoa que o mundo quer que eu seja. O que me resta? Aceitar em silêncio minha participação desta peça de teatro a que não pertenço, mas me domina dia após dia. Domina meu corpo, minhas roupas… Dias após dia, sou obrigada a conferir incessantemente cada um de meus detalhes, calculadamente escolhidos para refletirem em harmonia aos olhos dos outros.

Mas, diante da imagem que criei, quem sou de verdade chora, sem chance de se revelar. Sem chance de mostrar ao mundo que é muito mais do que mostro, do que me permito ser. Sei que sou mais do que essa pessoa que não conheço, mas que tem meu nome – quero ser mais que tudo isso, mas não consigo…

Minhas verdades não ditas se sufocam e se calam, lutando com garra para não morrer diante do reflexo de quem não sou. Eu apenas ajeito o cabelo, retoco a maquiagem, em meio aos gritos, implorando por misericórdia, abafados pela minha covardia. Tenho fé que um dia me libertarei dessas amarras… Mas não hoje.

[Luisa Lopes]

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