O que aprendi ao trabalhar com meu pai

Em 2014, após um período trabalhando como jornalista em São Paulo, decidi voltar para minha cidade natal, Bragança Paulista. Estava desiludida profissionalmente e a capital parecia a causa de todo o meu estresse e frustração. Por uns meses enviei uns currículos, mas percebi que queria ficar um tempo no interior. Foi então que tive a ideia de pedir um emprego ao meu pai.

Ele é dono de uma lanchonete dentro da universidade de Bragança, bem próxima ao hospital universitário. José Roberto abriu o primeiro trailer chamado “Ki-Dog”, em 1979, juntamente com a primeira turma de medicina.

Imagine quantas pessoas passaram e passam por ali. O trailer deu lugar a uma lanchonete de alvenaria, com 40 metros quadrados. Nesse pequeno universo de grandes histórias convivem todos os tipos de pessoas. É uma zona neutra. Ali se encontram médicos, enfermeiros, funcionários do hospital e da universidade, estagiários, alunos de vários cursos, motoristas de ambulâncias e claro, pacientes e seus acompanhantes.

Eu era a única pessoa da família que não havia trabalhado na lanchonete. Minha mãe, irmã, tios e primos, todos ficaram ao menos uma temporada por lá. Meu pai é uma espécie de porto seguro familiar. Quando o calo aperta, é pra ele que todos correm.

Sempre mantive uma certa distância, exceto na infância, quando o local era sinônimo de diversão: ficava correndo pelo estacionamento da universidade e todos aqueles doces pareciam o paraíso. Mas nunca me envolvi nos negócios familiares.

Após o meu pedido de socorro recebi um sonoro não como resposta. “Eu já te disse filha, você não tem o perfil pra trabalhar na lanchonete”. Insisti, argumentei, até que venci pelo cansaço.

O que eu não poderia imaginar é que a profissão de jornalista tem muito a ver com a de balconista/caixa que exerci na lanchonete, especialmente se tratando de um local tão perto de um hospital. Como jornalista preciso estar de coração e ouvidos abertos para receber as histórias que todos querem me contar. Na lanchonete não é diferente.

Ali estão aquelas pessoas querendo compartilhar um momento. Por um muito tempo o “Ki-Dog” era a única opção se você quisesse matar a fome dentro da universidade. Hoje existem concorrentes, inclusive do lado de fora. E minha pergunta passou a ser: O que diferencia o meu pai dos outros donos de lanchonetes? Porque as pessoas preferem comer ali?

A resposta é simples. Tratamos os clientes como pessoas. Eles não são números. Na caixa de entrada do meu e-mail, pipocam mensagens de como atrair mais clientes, como vender mais, como fidelizá-los. Observando o meu pai trabalhar, só posso dizer que você pode fazer o melhor curso, ler todos os livros sobre o assunto, seguir os passo-a-passo dos gurus, e de nada vai adiantar se não tratar o próximo com respeito, atenção e paciência.

Nós conhecemos as pessoas, e mais, nos interessamos por elas. Os frequentadores mais antigos nem precisam pedir. Quando vão se aproximando, alguém já grita: “O misto quente do Doutor Rafael é só com uma fatia de queijo”. “O enfermeiro Riva prefere o café na xícara preta”. “Não esqueça que o suco de laranja da Rose é com gelo e sem açúcar”.

Certa vez uma mulher chegou e eu perguntei: “Oi moça, o que você vai querer?”. E ela meio atordoada respondeu: “Qualquer coisa. Minha mãe acabou de morrer”. Por alguns segundos fiquei sem reação. Disse que sentia muito e pedi pra ela se sentar. Então levei um leite com café. Logo chegaram os parentes e todos ficaram ali tomando as primeiras providências.

Nessas horas o alimento serve também para acalmar, para colocar as ideias no lugar. Quantas e quantas vezes ouvimos: “Me dá um suco de maracujá antes que eu solte os cachorros em cima do meu chefe”. E ainda: “Hoje eu vou comer um pedaço de bolo porque estou estressada”.

Durante aquele momento, do café com pão de queijo, a pessoa começa a conversar, desabafa, algumas vezes chora e se mostra vulnerável. É a vida sem maquiagem. E nós estamos prontos para ouvir. Para sentir empatia. Sem receio ou vergonha de se emocionar. Uma eterna troca. Nós damos atenção e comida. Eles nos dão histórias.

Alguns criam um laço mais forte e antes de partir passam para se despedir. “Estou indo embora, meu marido teve alta”. “Venha ver a minha neta que acabou de nascer, vamos pra casa agora”. “Os médicos fizeram tudo que podiam pela minha mãe, mas o coração dela não aguentou. Só vim agradecer pela atenção que vocês me deram esses dias”.

Mas não pense que é um lugar triste. Ao contrário. Muitos passam apenas para conversar com meu pai e ouvir uma das dezenas piadas que ele gosta de contar. Quando ele não está, ficam até um pouco decepcionados.

Mais ou menos um mês depois que comecei a trabalhar na lanchonete, meu pai chegou em casa muito feliz. Disse que estava ouvindo elogios sobre mim. Acho que foi a partir daí que ele relaxou e acreditou que eu poderia sim fazer aquele trabalho. E que estar ali não me tornava menos jornalista e também não queria dizer que todo o investimento dele na minha carreira foi em vão. Estar ali me tornava mais humana.

[M.B.]

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