O primeiro homem que amei

Eu lembro de ser bem pequena, pular em cima do meu pai e exigir que ele brincasse de lutinha comigo. Lembro de ignorar as frases da minha mãe dizendo “brincadeira de mão machuca, você vai chorar já já”. Eu sempre chorava (nota mental: não ignorar os conselhos dos meus pais).

Eu me lembro do calor das mãos do meu pai, de como ele segurava minhas mãos e eu achava que nada, absolutamente nada poderia me machucar. O homem mais poderoso do universo estava me segurando pelas mãos, até os heróis temeriam ele, os vilões correriam mil léguas de mim enquanto ele segurasse minhas mãos.

Me lembro de um cheiro só dele e das cores em sua pele. Lembro da voz dele quando eu fazia algo errado, e lembro das risadas que dávamos com suas brincadeiras bobas. Minhas irmãs e eu sempre tivemos no meu pai uma referência de humor deliciosamente bobo e simples. Talvez porque sempre vimos minha mãe gargalhar [alto] de tudo que ele falava – ela ainda gargalha, e ele ainda faz as mesmas piadas.

Estou falando no passado porque são memórias infantis. Até porque nós crescemos e algumas coisas mudam um pouco. Alguns tem a chance de se tornar amigo dos pais com o tempo – eu tive essa sorte. A parte ruim de crescer é que a gente tem cada vez menos coragem de demonstrar afeto pelos nossos pais e familiares, e enxerga imperfeições muito de perto. E confesso que escrevendo esse texto eu tenho uma vontade louca de correr pra casa, dar um beijo nele e dizer “ainda bem que deu tempo, amo você” – simplesmente porque eu ainda tenho sorte de tê-lo por perto.

Infelizmente nem todo mundo teve a chance de crescer com um cara bom, com uma referência de pai. Tenho amigas que, assim como eu, veem o pai como um cara incrível até hoje. Outros amigos tentam ser para os filhos o que não tiveram nos pais. Ou simplesmente não tem mais os pais por perto.

Se as pessoas soubessem o que a mente de uma criança é capaz de guardar, será que não pensariam duas vezes antes de agir? E mesmo depois de crescer, quantos pais resolvem que não tem mais obrigação, ou mesmo escolhem apenas um dos filhos para ter perto?

Vejo meus amigos se tornando pais, e me alegro pois sei que serão bons e responsáveis. Por outro lado eu vejo caras que deveriam estar internados, mas estão gerando crianças e as tratando como mercadoria.

Mais amor, por favor. Ainda dá tempo de se tornar herói dos seus filhos. Ainda dá tempo, filhos, de dizer que amam seus pais. Ainda dá tempo de enxergar, mesmo com todos os defeitos que a vida adulta nos revela, enxergar um cara que do jeito dele tentou ser um pai. Acredite, não deve ser nada fácil.


 

[Luciana Meningue]

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