Não lembro do seu cheiro de frutas e da cor dos seus olhos pretos

Eu tenho a impressão de que a grande maioria das pessoas está, nesse momento, sofrendo por um amor do passado que não se curou totalmente. São pessoas machucadas andando por aí com sobrevida na alma. E eu tenho medo de cruzar com elas, ou pior, parecer um pouquinho com elas.

Então eu continuo meu caminho diário – levanto cedo, tomo um banho e prometo que o dia vai ser bom. Dirijo normalmente e tento manter a atenção entre a música do rádio e os semáforos do centro da cidade.

Há algum tempo eu já não enxergo seu carro vermelho pelo caminho. Até outro dia parecia que todos os carros vermelhos seguiam o meu, mas hoje não mais. Talvez um ou outro carro vermelho pra despistar meu foco. Mas eu sigo meu caminho.

Estaciono o carro, ando até o trabalho e entro sorrindo por onde for. Sem pensar no que aconteceu há seis meses, quando a gente ainda era um casal feliz e você simplesmente resolveu me trocar pela magrela do funk da rua de cima da sua, eu sigo meus dias tentando não parecer alguém que não superou o passado.

E logo me lembro das pessoas machucadas andando pela rua feito ‘walking dead’ sentimental, e lembro que pensar em você me faz ser uma delas. Daí eu tento pensar em dias de Sol, em pássaros cantando e em gelinho de leite condensado. E lembro de você suado da academia me dizendo que malhava pra poder beber cerveja sem medo. Em seguida me vem na cabeça o teu sorriso debochado na beira do quiosque na praia, me dizendo que queria comer ostra e fazendo cena pra não pagar a conta que não tinha consumido.

Velhos tempos.  Eu lembro, mas não dói mais. Memória, não dá pra perder da noite pro dia, e talvez ainda me lembre de você e do teu cheiro gostoso pós-banho por um tempo. Mas não vou andar por aí agonizando paixões não correspondidas. Não mais.

[ só de vez em quando vejo um ou outro carro vermelho, nada demais. ]


[L.M.]

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