Não deu tempo de chorar

Nem de me acostumar com seu cheiro, seu corpo, sua pele, sua voz e companhia. Não deu tempo de criar lembrança, marcar a memória, deixar um rastro de saudade. Nem de pensar no que poderia ter sido e nem deu tempo de planejar uma vida contigo.

E isso é ótimo. Quase um mantra a ser repetido, algo para evitar de me arrepender do momento em que atravessei a rua, mudei a direção, o lado, a vida e o destino. Poderia ter sido você sim, e nada me tira da cabeça que talvez a gente tivesse dado bem certo.

Mas quem pode saber? A gente nunca vai conseguir descobrir isso. Engraçado não é? Num segundo você nem conhecia a pessoa, no próximo já parecem ter uma história juntos e no momento seguinte vocês atravessam a rua para lados opostos.

E talvez seja isso que acontece com a modernidade, com as grandes cidades ou com grandes perdedores. Num segundo a gente desencontra, dessincroniza, desarruma e não consegue mais voltar ao que era. E se isso é a escola do ‘perder’, talvez eu já tenha um diploma de mestrado.

Tudo bem, não foi a primeira nem a última vez. “Tentativa e erro” eles disseram. “Precisa continuar tentando” eles disseram. “Não desiste ainda, não deixa o coração gelar” eles disseram. E é só isso que eu venho tentando.

A verdade é que algumas histórias de amor nem sempre duram tempo o suficiente pra doer, mas dói mesmo assim. Aprendi que a primeira lágrima não pode cair, porque junto dela vem uma porção de outras. Então a gente respira fundo, não desiste, não se entrega, não chora.

Afinal não doeu, nem deu tempo.

[Luciana Meningue]

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