Meu coração é um acumulador incorrigível

Meu coração não é plástico. Minha mente sim. Meu coração, não. Ele não se modifica, não se altera, não se modela.  Na realidade, meu coração é um acumulador compulsivo. Não interessa se o fiscal sanitário, síndico e petulante Sr. Cérebro, frequentemente envia ordens de despejo e limpeza. Ele não se livra de nada. Apenas acumula e acumula. Irremediável.

São entulhos desordenados de sentimentos. Caixotes e caixonas de experiências.  Pilhas de aprendizados.  Uma sorte de erros, alguns espalhados à vista, outros escondidos debaixo de tapetes pesados de dores e sofrimentos.  De um lado para o outro, felicidades que não se contém em caixas ou não se ordenam em gavetas.  Uma porção de decepções insiste em estar pelos cantos, duras decepções imóveis e enraizadas, ocupando espaços preciosos.

Mas meu coração é grande, e ainda nele cabem os amores. Esses sim são espalhafatosos, espaçosos, não se contentam com um canto, em permanecer quietos e parados, embalados. Não, eles não acumulam poeira. Sempre remexendo as pilhas, as caixas, os cantos, debaixo dos tapetes e no fundo das gavetas. Hora ou outra eles tocam uma música bem alta, que inconvenientemente acorda o Sr. Cérebro. Sem perceber, o síndico canta e dança por alguns momentos. Até que a luz de emergência pisca e a sirene de alerta soa.

Sr. Cérebro corre a emitir mais uma ordem de limpeza, a começar pela lista de músicas, pelos livros, os calhamaços de textos e rascunhos poéticos jogados e espalhados pelos amores. Ele é incisivo em dar ordens.

O Coração recebe os comunicados ríspidos, sem emoção nenhuma, sem zelo, sem cuidado, e então, os ignora. Um após o outro, esses sim, ele não faz questão de acumular, rasga-os todos e joga pela janela do esquecimento, da imprudência.

O coração pede aos amores que aumentem o som e ignorem as batidas na porta, de um Sr. Cérebro que não entende nada de acumular, não entende nada de sentimentos e não saberá, mesmo que um dia tenha essa pretensão, sobre o conforto de se ter sob o mesmo teto tanta dualidade e contradição vivendo em perfeita harmonia.

[Juliana Centini]

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