Fixação

Eu poderia ficar te olhando por horas, decorando cada detalhe seu. Eu que olho sua foto e pouco me diz. Eu que olho e posso te imaginar do jeito que quiser. Esse olhar meio Monalisa, esses olhos meio turvos que podem ser de desejo, dúvida ou de ressaca. Essa sua cicatriz que eu não sei se é de infância ou se tá ali pra te lembrar de algo que ainda dói.

Você que tem idade de menina e já tem esse ar de maturidade, de desbravadora do mundo, eu não sei muito bem se você sabe pra onde tá indo. Eu não sei se você sabe que sempre tem alguém pra te acompanhar, seja com os olhos, seja com a vida. Você que já passou por tanto e tem tanto ainda por passar. Você que fala tanto, mas não diz quase nada. Você que brinca com a dor e fica a vontade com ela porque já viraram amigas íntimas.

Eu que olho sua foto e vejo todas essa suas tatuagens em outro idioma e fico pensando que seria um prazer traduzir todos seus contornos com boca e língua. Silabicamente, desejo por desejo. Até você também aprender o que isso significa ou o que quer dizer. Até você não esquecer do que tem tatuado ali.

Até você fechar os olhos e não saber mais se é pensamento ou sensação. Até você se sentir sendo tatuada de novo, reinventada. Que seja pelo calor da língua ou pela lembrança da pele sendo rasgada pela tinta, como se fosse a primeira vez.

Você que não é só foto, mas se eterniza agora em Polaroid. Num momento qualquer, perdida no tempo, no olhar, no desejo. Em um espaço onde você sabe onde se encontrar e encontrar a mim.

[M.G.]

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