Faça o que te permita ser o que você quiser

De frente para o espelho ela arruma um fio de cabelo fora do lugar e prende com um grampo. Coque: ok. Dá uma olhada na roupa: meia calça, collant, polaina e sapatilha: ok. Não está com o corpo que gostaria aos 30 e poucos anos, mas já sente a diferença que a volta ao ballet lhe proporcionou. O fôlego melhorou e o alongamento, nem se fala! A coluna agradece, já que a postura também é outra.

Chega à escola, cumprimenta as amigas. Está aí outra coisa bacana: conheceu novas pessoas. A troca de experiências é sempre enriquecedora. Conversa um pouco e deixa a garrafa de água a postos. Vai começar a aula.

Aquecimento. Já sente algumas partes do corpo estalar. Exercícios na barra. Concentração. Contagem: cinco, seis, sete, oito. Plié, relevé, tendu, jeté, fondue, sous sus, grand plié, développé. Como é mesmo o nome daquele passo? Já não pensa em mais nada além da aula. As sequências demandam toda a atenção. Dá uma olhada no espelho e confere se está fazendo os exercícios em sincronia com as outras alunas.

O professor é exigente. Graça a Deus, ela pensa! Assim que gosta. Atenção aos braços, pernas, pés, e postura. “Abdômen e glúteos para dentro”. “Joelho esticado”. Tudo coordenando para que o espectador veja somente a leveza do movimento. Se soubessem o quanto dói! Fica imaginando se as amigas que fazem musculação iriam aguentar uma única aula de ballet.

Acha graça e agradece pelos anos anteriores, a base que teve foi fundamental para hoje conseguir acompanhar as aulas. Mesmo que ainda esteja meio enferrujada, quando o cérebro sabe o que deve ser feito, mas o corpo não responde. Confessa que isso a irrita às vezes. Mas lembra das palavras do professor: paciência.

A aula prossegue. Repete aqui, arruma o quadril ali, presta atenção na correção de outra aluna. Ouve a música. Já decorou algumas. Sente uma paz a cada “play”. Depois de todo esse tempo ainda é apaixonada pela dança. Pausa para a água.

Hora dos exercícios do centro. Mais difíceis. Mais equilíbrio. Piruetas. Ah, essas sim acabam com o labirinto! Alguns anos atrás poderia ficar rodopiando que ia sentir apenas uma leve tontura. Hoje pensa: Meu Deus, cadê meu eixo?! Seria a idade ou a falta de jeito? Ela e as amigas acham graça em alguns erros. Pra terminar, exercícios na diagonal.

Fim de aula. Palmas para o professor e alunas. De frente para o espelho novamente ela vê a imagem de uma mulher cansada, suada, esgotada, dolorida e com sede. Entretanto, realizada, mais segura e confiante. A aula de ballet é a sua injeção de ânimo. O momento em que o corpo diz: obrigado por acreditar em mim.

Porque ali somos o que quisermos. Somos bailarinas do Bolshoi, Kirov, American Ballet, somos Ana Botafogo, Cecília Kershe, Natalia Osipova ou Svetlana Zakharova. Somos uma coisa só. Cabeça, corpo e coração unidos pelo movimento, pela música. Somos entrega, entusiasmo e disposição. Somos sonhos.

E viva a dança!


 

[M.B.]

 

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