Estamos à flor da pele

Eu estava lendo um texto da TiTi Muller sobre machismo, direcionado à Antonia Fontenelle. Um texto sobre amor, sobre como as caixas postais estão cheias de ódio e de gente ardendo por mais xingamentos. Sobre como devemos, todos nós, ser a voz da razão, do amor e da luta por respeito.

Em outra janela conversava com um grupo de amigas falando sobre o seriado 13 reasons why, liberado pela netflix na semana anterior. Um seriado sobre bullying, sobre um drama pesado que resultou no suicídio de uma adolescente.

Sim estamos problematizando muita coisa, hoje não pode piada de quase espécie nenhuma. É não pode. Aprendamos a rir do que não humilha ninguém. Ria do cachorrinho bocejando na timeline da rede social, ria do porquinho gordinho tropeçando *(coitado do porquinho), ria do gato que não queria tomar banho. Mas não ria dos outros, não ria do teu semelhante em situação de exposição.

E mais importante, não crie exposições. Esse texto é uma confissão de mea culpa também. Eu já fui a pessoa que aponta o dedo, vez em quando meu lado retrógrado ainda tenta passar na frente. Eu peço perdão por esse lado meu existir, todo santo dia eu tento não ser essa pessoa. Estamos à flor da pele. Estamos por um triz de surtar. No grupo que falava da série uma amiga confessou “a série mexeu comigo mas não me impediu de ficar tão irritada com uma mulher no ônibus que acabei falando coisa feia à ela”.

Estamos em ebulição. O país em crise, a censura pegando, a problematização nos fazendo sair da zona de conforto, o crime, a falta de segurança, as contas pra pagar, o medo do desemprego, o medo da falência… Temos motivos pra surtar. Motivos pessoais, motivos coletivos. Motivos para que todo mundo tenha seu dia ou momento de fúria.

Mas parafraseando chapolin colorado – não priemos cânico!

Respire três vezes. Você não sabe a guerra que a pessoa ao seu lado está enfrentando. Se você está do lado dos “bonzinhos” e consegue ter a consciência limpa na hora da problematização (contra o machismo, o racismo, o preconceito em geral), pelo menos tenha consciência também de não liberar palavras de ódio no mundo. Vigie também seus pensamentos. Se você está do lado que “fala o que pensa os outros que te aceitem como você é” eu te peço que também reveja seus conceitos e mentalize se essa pessoa teria um bom lugar “no paraíso” – caso morra, por exemplo. (isso vale pra ateus também).

E se você, assim como eu, ainda está tentando não ser a pessoa ruim mas as vezes fala coisas das quais se arrepende, que bom que se arrepende. Mesmo em ebulição, mesmo à flor da pele, sempre temos aquele segundo pra decidir quem vamos ser.

Escolha ser melhor, todo santo dia.

[ Luciana Meningue ]

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