Decisão sóbria de um coração bêbado

 

As estações do ano já haviam mudado duas vezes. Os cabelos brancos estavam se multiplicando na velocidade da luz. Nem a cerveja descia mais como antes e um suco fez a vez na mesa. Percebeu que muita coisa ali já não era a mesma que antes lhe fazia companhia.

Diante daquele papo trivial, entre um e outro gole, olhava atentamente como quem decorava cada palavra dita. Mas distraia-se ao ver a cor do cabelo diferente da que desejava ali. O que antes era ruivo, acompanhado por sardas e gesticulando sobre como a política nacional é uma farsa, agora vociferava sobre FGTS e coisas que seu passado jamais aprovaria.

Vencer o tempo não parecia uma tarefa fácil, talvez fosse melhor aceitar de uma vez. Ou talvez ainda lhe restasse um tempo para pedir ao tempo um pouco mais de tempo pra tentar. No telefone sua última tentativa parecia dar na mesma, parecia que lhe absorvia as últimas fichas no poker da vida e o “all win” lhe aproximara do abismo.

Mas era preciso arriscar.

Se pegasse o ônibus agora talvez o motorista fosse rápido o bastante para chegar ao passado antes do futuro lhe alcançar. Deixou o momento pra trás, pediu desculpas e invocou uma história sobre sentidos. Seria melhor ir direto ao ponto. E mesmo sem saber se perderia a vez, mais uma vez, arriscou.

O suor entre os dedos exibia junto à respiração curta um sentimento que preferia esconder. Sentia o sangue percorrer as maçãs da face, destacando tudo o que lhe ocorrera até ali. Mas havia um último detalhe, havia uma última nota a ser tocada antes do fim. Era a brecha de tempo e espaço ideal para pular antes de perder os sentidos. Sem isso, nada mais faria sentido. E então pulou…

“21h40 – Estou na frente da sua casa, a gente pode se ver?”

 


 

[Luciana Meningue]

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