De ontem em diante somos nós


Há alguns meses ela levou uma escova de dentes, um kit de shampoo e condicionador pra viagem e um desodorante pra quando a correria ou o vinho a impedissem de ir embora. Aos poucos a vontade começou criar impedimentos também, com o passar dos dias e meses não havia mais motivos pra ir embora, só motivos pra ficar.

E ficamos. Ontem oficialmente buscamos as primeiras malas de uma sequência de malas que seguirão de mudança pra nossa casa. E meu gato não vai mais sofrer de saudade cada vez que ela for embora, porque agora ela não vai mais. Nem meu peito vai sentir a falta dela, porque ela estará lá deitada nele toda noite. E nem o oxigênio vai se abster de mim na hora da saudade, porque ela vai estar sempre perto.

Não haverá mais manhã sem beijo de bom dia, noite sem abraço. Não tem mais jantar sozinho, nem incerteza. Nem ausência, nem falta, nem buraco no estômago. Não tem mais espaço vazio no meio da sala, nem na cama, nem no peito.

Juntamos de uma vez por todas as escovas, os móveis, os sonhos, a força. Dessa vez não há dúvidas, o medo é menor do que o amor, tudo de ruim é um grão de areia numa praia de força, coragem, amor e bondade. Porque o que Deus uniu o homem não separa, porque de ontem em diante não existe mais eu e ela, seremos nós, entrelaçados, unidos, juntos, fortes e dispostos.

De ontem em diante, nós.

[J.S.]


 

 

“Se for ficar, fica de uma vez não enrola
Porque enrolar é só dentro do abraço
Eu faço questão de ser no meu
Que cabe tu
E é só teu

Chego à noite em casa procurando por você em todo canto
O que é que tu fez
Pra deixar rastro nos meus móveis
E o teu cheiro quando canto
Aquela canção que a gente ouviu na cama grudados
E aquele refrão que nos pôs pra dormir
Embaraçados

E você que se alojou nos meus olhos
E na minha boca
Por que não tá aqui?
A cama tá reclamando, a casa te chamando
Vem logo me ver
Tô te esperando entrar
Não precisa bater

Lembra de ficar um pouco mais
Quando pensar em ir embora
E querer
Muitos minutos à toa sem se importar com a demora
Do nosso sono matinal
De quando nos falta assunto
Nas horas que eu disparo a conversar
E tu não fala um só segundo

E você que se alojou nos meus olhos
E na minha boca
Por que não tá aqui?
A cama tá reclamando, a casa te chamando
Vem logo me ver
Tô te esperando entrar
Não precisa bater
Que eu esqueci de me trancar”

(anavitória – nós)


 

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