Carta para minha avó – Feliz Aniversário

Oi vó! Já é quase dia 02, seu aniversário. E se você estivesse nesse plano terrestre conosco, faria 85 anos. Estou em casa e acabei de fazer um chá de hortelã, natural, é claro (as marcas de chá que me desculpem, mas aqueles chás de saquinho de hortelã não chegam aos pés do natural).

Comprei duas mudas de hortelã alguns dias atrás. O cara da floricultura me aconselhou a comprar um vaso grande (que a princípio achei exagerado), dizendo que a hortelã iria crescer e se espalhar. E ele estava certo! Precisa ver que lindo está. Confesso que mamãe está cuidando mais dele que eu. Mas sempre que lembro, dou uma olhadinha e converso um pouco (sim, converso com as plantas).

Você que me ensinou a tomar chá de hortelã, lembra? Tenho isso nitidamente na memória: na sala, deitada na sua cadeira de descanso, com uma mamadeira quentinha cheia de chá. Não sei se era pra me acalmar ou por preguiça de fazer outra coisa! Porque eu sempre queria ir embora da fazenda assim que chegava. “Fernanda, dessa vez você não vai ligar para o seu pai vir te buscar no meio da noite, né?”. “Não vó, eu prometo! Quero dormir aqui com vocês”.

E era só chegar com a tralha toda, desfazer as mochilas, colocar o pijama, que eu já começava a chorar querendo voltar. Nada me fazia ficar, nem os argumentos do vovô ou a companhia da minha irmã.

Isso passou com o tempo. Acho que me assustava com o silêncio (sinal de que seria mais da cidade que do campo, talvez), com o barulho da natureza (o vento balançando os galhos), grilos, corujas, sem contar as histórias mal-assombradas. O saci que dava nó no rabo do cavalo, os fantasmas dos escravos que andavam arrastando as correntes no terreiro. Que medo!

Mas o tempo me fez gostar de lá. “Vó, posso jogar milho pra galinha?”; “Posso jogar de novo? Acho que elas já estão com fome!”. E as brincadeiras no terreiro (como espalhar o café que já estava todo certinho), as frutas direto dos pés. Nunca mais comi jambo, acredita?

É certo que você não tinha muita paciência pra cozinhar, mas, no que se propunha a fazer, era a melhor. Dois exemplos: 1- frango assado com batata no fogão a lenha (ou qualquer coisa no fogão a lenha); 2- bolinho de chuva. A falta de dotes culinários era compensada com uma geladeira farta. Doces, refrigerantes, bolos e queijos.

Voltando ao chá de hortelã…

Pra mim, sempre foi meu preferido. E não há uma vez que beba sem me lembrar de você. Eu te acompanhava quando ia buscar as folhas. Ficava embaixo da janela do seu quarto, na horta, bem no cantinho, ao lado de umas pedras.

Então vó, essa é a minha maneira de me lembrar de você e de te fazer sempre presente!

Acho que já escrevi muito. Vou terminar meu chá antes que esfrie!

Um beijo cheio de saudade

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