As primeiras vezes

Quando escutamos falar a “primeira vez” logo pensamos naquela primeira vez. Sexo. Mas eu não quero falar desta primeira vez. Quero falar das outras infinitas primeiras vezes que ficam ali sob a superfície. (Tem até um filme sobre elas, mas é com o Adam Sandler então não dá para referenciar muito bem). Basicamente quero falar sobre a beleza de fazer qualquer coisa que seja pela primeira vez. Ver, ouvir, sentir ou cheirar algo. Aquele primeiro instante em que tudo muda.

Você já reparou que o sentimento da segunda, da terceira e da quarta vez que realizamos alguma coisa não é o mesmo? Ok, o conceito de que é diferente nós temos, mas você já parou para pensar sobre isso?

A primeira vez que realizamos um projeto que queremos muito tudo é novo, nós podemos até saber quais são as variáveis exatas e lógicas mas não entendemos em profundidade como elas funcionam, quais as mensagens subliminares, o que você deveria saber e que não encontra escrito em nenhum livro. Não temos a total compreensão de como elas podem nos afetar e como, na realidade, elas são imprevisíveis. Nesse aspecto da primeira vez nós aprendemos na dor, através da tentativa e do erro. Um exemplo bem visual é quando você tem que ir a algum lugar, até está seguindo o GPS, mas ele fica sem sinal e você acaba se perdendo. Você vai se enrolar, pedir informações, entrar em ruas sem saídas e até no meio da favela você pode parar. Da próxima vez, você já vai saber exatamente o que fazer, ou no mínimo, vai errar menos.

A primeira vez que vamos a um novo país. Você não sabe os caminhos (entendeu que meu senso de direção é bem ruim, né?), sabe o que o guia turístico te diz e sabe quais são os pontos mais visitados. Vai lá, pega o seu mapa, sua câmera e sai se perdendo. Coloca dinheiro no bilhete de transporte local, começa a seguir as linhas do metro e vai conhecendo, vai descobrindo. Criando as novas conexões entre seus neurônios. Conhece pessoas novas. Conhece gente diferente e troca experiências. Vai para o meio das montanhas ver a neve e o lago que reflete as escarpas. Aprende sobre história, direitos humanos, dor, sofrimento e superação. Passa por situações difíceis e impressionantes. Enrascadas ou não. Na hora de ir embora você chora, porque sabe que no momento que por os pés em casa você já vai ter vivido a primeira vez ali. Você prolonga cada minuto e cada segundo porque não quer que acabe.

Ver uma peça, assistir um filme, ver o fim de uma série pela primeira vez. Você não sabe o que vai acontecer, você esta preso, envolvido. Você só vai voltar a viver a vida real quando for até o fim. Você sorri, chora, sofre e comemora com os personagens. Você lê a morte daquele personagem e não compreende, relê e desacredita. Aquele sentimento. Este sentimento. Você nunca vai repetir. Você irá reler, rever e lembrar do que sentiu durante e primeira vez, é à essa memória que você irá se referir e não ao que está escrito ou o que viu que te causou. Pelo menos não 100%.

A primeira vez é automática, controlada e assustada. Você olha em volta e vê desconhecido, nada ali significa algo, até que encontra algo que signifique. E ai você cria essa conexão emocional, esse link. Dessa vez você precisa juntar todo o conhecimento, toda a informação do ambiente, pisar com o dedão do pé antes do calcanhar. É aquele deslumbramento.

A primeira vez te causa arrepios, calafrios, borboletas no estômago. Medo. Inocência. Se esses sentimentos são bons ou ruins, depende de você, porque você consegue se lembrar de uma situação boa, seu primeiro beijo e uma situação desafiadora como um trabalho diferente do que está acostumado. Repense essas sensações. Não se encaixam nos dois casos?

A segunda, terceira, quarta, enésima vez já é diferente. Por quê? Porque você fecha os olhos e vai. Vai bater a testa na parede, vai, mas já tem mais ideia de que EXISTE uma parede ali. Seu instinto de sobrevivência não está tão debilitado. Você não só recebe o beijo, você reage e puxa para mais perto. Você sabe que se for por aquela rua chegará perto da praça grande com o leão no meio. Você sabe que aqueles amigos que fez há 3 anos num país longínquo estarão ali. Sentar com eles para conversar será igual? Não! Os beijos serão todos os mesmos? Não! Reler aquele livro ou ver aquela série te causará o mesmo sentimento? Não! A experiência de passar por aquela rua será a mesma ou você pode ser assaltado?

Tentar voltar e esperar que irá reviver tudo é um erro. Nem Bentinho conseguiu recriar suas memórias da rua de Matacavalos, quem é você para conseguir reviver tudo? Por isso que os momentos são únicos. A água do rio que você vê nunca será a mesma, porque ela corre e deságua no mar. Essa não é uma mensagem pessimista, embora pareça e muito. O que quero dizer é: Aproveite cada momento do presente porque ele não volta mais. Não é uma ameaça, é um conselho.

[M.R.]

 

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