Aquele momento em que você descobre o que significa crescer

Estava escolhendo qual série assistir em seguida quando me deparei com as três últimas temporadas de Smallville ainda embrulhadas no plástico original.

Quando eu tinha 11 ou 12 anos, esta série estreou, assim como a minha adolescência. Eu me apaixonei profundamente pelo Clark Kent da vida real e pelo Clark dos corredores do meu colégio. Projetei todos os sentimentos causados pela série na vida real. Vivia com emoção, amando, sofrendo e esperando o clímax do próximo episódio.

Clark se apaixonava pela Lana e ignorava os sentimentos não correspondidos da Chloe. Lá estava eu, sendo a Chloe, obviamente.  Esperava cada episódio religiosamente – se você acha que sua avó é desesperada pela novela, é porque não me conheceu na época. Houve o dia que a série passava às quintas-feiras às nove da noite e houve o tempo que as terças eram sagradas.

E ele estava lá, o amor da minha vida. Estava nos meus sonhos depois. E o amor dele pela Lana e a dor dos amores impossíveis me machucava, me deixava desesperada, ansiosa por repetir os diálogos, tão perfeitos e que traduziam tão bem meus sentimentos.  Porque não falar o segredo? Por que não ser sincero? Por que não conversar? Por que tentar proteger tanto? Não importa. Este é o certo. É o que acontece, não é?

Com o tempo e as temporadas a série chegou ao seu 7º ano. Eu já estava na faculdade e não tinha mais tempo de me reapaixonar pelo amor do colégio. Meu foco agora era estudar e conhecer gente nova, aos poucos eu ocupei os meus horários sagrados com outras religiões.

Semana passada decidi continuar de onde parei. Abri o plástico intocado e assisti a oitava temporada. O que eu encontrei foi a adolescente de 2002 e suas emoções confusas e intensas. Percebi que os diálogos não são tão ricos assim, os personagens sofrem demais e em todos os episódios e a cada momento o Clark promete para alguém que vai salvá-lo, não importa o que aconteça. O que ele nem sempre faz e que torna suas promessas vazias e desapontadoras para os outros personagens, em geral para a Chloe.

Em relação a ela, a dinâmica dos dois mudou completamente. Nesta temporada, ela começa a ver que realmente a vida com  o amor da infância não vai rolar porque ele esta ocupado “salvando o mundo”, iludindo as pessoas e sofrendo física e psicologicamente por algo ou alguém. Ela encontra um homem de verdade, embora seja o Jimmy Olsen, e decide que o Clark fica melhor em seu papel de melhor amigo, levando-a ao altar.

Acho que isso se chama amadurecer e viver na realidade. Chloe amadureceu, mas parece que o Clark que não… ele sempre vai estar lá com suas frases de efeito e tentando salvar todo mundo, mas quem nunca vai se salvar será ele. Estranho, como o personagem se caracteriza,  é pensar que a série era o meu mundo, mas agora é só uma lembrança que me ajuda a entender as escolhas que fiz e quem eu sou hoje. Entretanto meu eu do presente não se caracteriza pela série.

Hoje em dia acompanho fervorosamente Game of Thrones. O que isso quer dizer sobre mim?


 

[M.R.]

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