A difícil tarefa de continuar com a vida

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“Eu não sei como é existir em um mundo onde meu pai não exista”, esta frase é falada em um episódio daquela série médico-romântica Grey’s Anatomy, ainda lá atrás, na terceira temporada, quando o pai de um dos personagens morre de metástase de um câncer no esôfago. Episódio este, que eu, amante das séries de TV médicas ou policiais, fui ver somente essa semana.  Uma história dividida em duas partes que resume muito bem como foram três anos da minha vida. Aliás, essa frase no início do texto resume minha vida depois que os três anos de sobrevida do meu pai terminaram.

Após o falecimento de meu pai e de uma luta duríssima contra um câncer em estágio avançado, eu me acostumei a dividir as pessoas do mundo em dois grupos: o dos que conhecem a dor de perder o indivíduo mais amado para sempre e o dos que nunca vivenciaram o sentimento mais cruel, agudo e profundo da vida.

Amar alguém a ponto de sentir vontade de dar sua vida pela desta pessoa não é facilmente compreensível. Não é vínculo sanguíneo apenas que decide quem amaremos, mas o quanto aquela pessoa influenciou sua vida, no meu caso, a influência foi 100%. Eu sou uma cópia dele, em vários sentidos: sou baixinha, nervosa, briguenta, determinada, sou manteiga derretida, falo grosso e alto, odeio injustiças, me imponho facilmente e misturo os idiomas sem perceber… minhas mãos, ah, essas são a maior e mais diária lembrança que tenho, são iguaizinhas as dele!

Com tudo isso rolando na cabeça, não é muito difícil perceber porque divido as pessoas naqueles dois clubinhos que citei acima. Ao perder alguém, o indivíduo em questão passa a ter uma tristeza a mais nos olhos, que nunca vai embora. Melancolia que volta algumas vezes por ano, nos aniversários de morte e de vida. Se eles forem perto então, prepare-se, não terá um mês fácil.

Olhar álbuns de fotos de quando era criança torna-se menos doce, a lembrança e a tristeza sempre estarão lá. Mesmo quando a saudade vira algo mais ameno e gostoso, mesmo quando você consegue voltar a olhar fotos e vídeos da pessoa sem encher os olhos de lágrimas a ponto de mal enxergar…ainda assim, vai doer! Vai corroer e não vai ser fácil!

No dia que meu velhinho se foi, uma mulher muito sábia na sala de espera – salas de espera são algo que você se acostuma quando passa muito tempo em um hospital e começa a conversar, comparar histórias e prognósticos – me deu uma lição de vida nunca esquecida: sua filha estava com câncer terminal, em cuidados paliativos, moça de 28 anos, mãe de mais de 60. Ela diz: “mocinha, não fique assim, você tem que agradecer todos os 25 anos que seu pai passou ao seu lado e pensar no quanto foram belos e no quanto ele cumpriu a missão de ser o melhor pai do mundo para você. Agradeça pelos 25 anos, não lamente os próximos 50 ou 60 sem ele”.

E é assim que vivo desde então. Apesar de ser muito difícil existir em um mundo onde ele não exista, a vida seguiu seu curso, a de todos nós seguirá. E ele, meus amigos, cumpriu muito bem seu papel na terra como pai, isso posso lhes garantir.


 

[N.D.]

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